segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Modelo Ótico de Lacan

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A saia de Geisy: uma questão de gênero?

Ontem fui a um evento corporativo e, como não costumo frequentar ambientes de bussiness, o traje das mulheres presentes me fez pensar em um evento da semana. A trágica expulsão da aluna Geisy, cuja saia curta causou reações agressivas nos colegas universitários, mostra o quanto a sexualidade da mulher é algo que faz a sociedade corar. Isso nos faz voltar ao velho e complicado assunto da diferença. Gênero e biologia não são da mesma ordem.
Geisy foi considerada inadequada em um local que deveria privilegiar o livre pensar. O evento demonstrou que a instituição de ensino reitera a ideia de que a sexualidade da mulher não deve estar presente em locais de conhecimento. Ou seja, há mais fumaça no ditado popular: "onde se ganha o pão não se como a carne", do que se supõe. Em um ato solene de repúdio à mulher que se coloca como sexualmente desejável, a violência e a segregação se instalaram. O mais notável foi como a opinião pública se mostrou confusa, titubeando no quesito "roupa apropriada". Senti no ar uma certa concordância com ideia de que uma moça que se mostra em trajes tão sumários está pedindo reações exacerbadas. Ora pois, pessoal! Não existe roupa apropriada para pensar ou aprender. Existem trajes que favorecem o desejo, que exercitam a fantasia sexual. Existem trajes que escondem totalmente a condição de mulher, como os ternos que imitam as vestimentas masculinas, em cores austeras. Tais roupas buscam igualar a mulher ao homem, como se isso resolvesse a questão da diferença de gênero. Como se isso favorecesse a inteligência das mulheres. Com a inteligência é que trajes não tem nada a ver.
A sociedade civil se transformou em um bando de moralistas no caso Geisy, condenando a moça por mostrar partes do corpo que sugeriam sensualidade. Esqueceram que Universidades não são antigos liceus, com uniformes rígidos. Além do mais, que deveriam priorizar a ética e o respeito ao próximo, esteja esse próximo vestindo a roupa que quiser. Mulheres são mais que suas roupas, sejam elas curtas ou longas. Podem pensar independentemente de sua sensualidade. Feminilidade não é sinonimo de sensualidade, ou sexualidade descarada. Também não é necessário se vestir como homem, de terno de cor sóbria para poder pensar!

sábado, 7 de novembro de 2009

A psicanálise continua

Em setembro de 2009 fez 70 anos da morte de Sigmund Freud e uma série de reportagens saíram no jornal na medida em que a data se aproximava. Em geral, todas discutiam o valor da psicanálise na contemporaneidade frente aos avanços da psicofarmacologia. Senti um estranhamento com a insistência neste assunto, visto que a psicanálise tem uma contribuição tão consistente sobre a subjetividade humana. Mas o estranho remete a um desconhecido familiar, no sentido que a hegemonia da vertente organicista para explicar o sofrimento psíquico é óbvia e outra, porque cada vez, mais pacientes chegam ao meu consultório por estarem insatisfeitos ou incurados com o uso de medicação.

Os remédios quando receitados de forma abusiva como hoje, ou seja, usados para tirar tristeza, mal-estar, raiva e não apenas para conter momentos graves de crise, geram, invariavelmente, uma sensação de artificialidade e até, não curam. Como medicar fosse uma loteria, pacientes são submetidos a cada mês a um cocktail diferente no argumento de que é preciso achar a medicação que se ajuste ao paciente.

Enquanto isso a causa da tristeza, o modo que o sujeito conduz a sua vida continuam, mas sem a pessoa sentir nada. Isso é cura? ou o reforço de uma alienação que faz parte da nossa constituição? Freud está a morto e a psicanálise, apesar do uso que alguns fazem dela, continua presente e eficiente na vida daqueles que verdadeiramente querem saber de si e tornarem-se menos assujeitados ao discurso que o constituiu. Afinal, às vezes um charuto não é apenas um charuto!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O que é importante para você?

Tenho pensado sobre a forma que as pessoas conduzem a vida... em geral, vivem o cotidiano: procurando pagar as contas, chegar o final de semana para ir ao shopping, resolvendo os problemas que surgem no trabalho, tentando administrar as demandas do chefe e da família. Enfim, com pouco tempo para se perguntar: o que é realmente importante na minha vida? Encaminho a minha vida do jeito que acredito que precise ser? Apenas vivem, inclusive, a maioria, nem se questionará sobre a sua própria condição.
Este exercício de não perder de vista o que acredito, o que considero importante, tem se tornado essencial na minha vida. O mundo gira, as coisas mudam, mas se eu manter o foco no que acredito, naquilo que me realiza como sujeito, sei que tudo ficará bem. Por que eu posso contar comigo.

sábado, 17 de outubro de 2009

Quem tudo tem, nada quer

Estava neste final de semana num café conversando com uma amiga minha, Léa Albuquerque. Ela é atriz e já tem um bom tempo de estrada. Além de atuar, ela também é professora. Estávamos conversando sobre a falta de paixão da geração que está hoje nos bancos acadêmicos. Ela falava que antigamente, as pessoas corriam atrás do que queriam, havia paixão no trabalho. Quer ser ator, leia todos os livros sobre o assunto, vá aos espetáculos, estude os diretores e atores que estão colocados na cena contemporânea, emfim, dedique-se a buscar o máximo de ferramentas intelectuais e sociais para se tornar um bom ator. Conta ela, que hoje, eles não conhecem ninguém do meio artístico (só os da novela), não estudam e querem apenas estar em cena recebendo aplausos.
Todo ator deseja aplausos, mas como consequência de um bom trabalho e não por apenas ter pisado no palco.
Falei também um pouco sobre a minha realidade enquanto professor, em que alunos não estudam, não querem entender, refletir sobre o conteúdo, apenas o diploma. No máximo, a aprender técnicas para parecer que sabem o que fazem.
Em ambos, o foco está em obter o ganho com a tarefa, mas não acreditam precisar realizar um esforço, fazer sua parte.
Dizia minha amiga: antes não tinhamos acesso a informação, era preciso estar atento, hoje com a internet, eles tem tudo, mas não querem ler nada. Será que a oferta não mais gera a demanda? Será que não se estuda por estar tão acessívell? Acredito que outros fatores precisam ser considerados nesta história. Entre eles, o fato das pessoas estarem identificadas com o papel de consumidor, logo, cheio de direitos, mas pouco compromisso com a própria ação. Mas saber não se compra, é preciso paixão em querer adquirí-lo, seja de que natureza for.
Refaço meu título: quem só quer, não deseja nada.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

11 de Setembro de 1981

O LEGADO DE JACQUES LACAN por Betty Milan

"Eles me chamavam o obscuro e eu habitava o clarão."
Saint-John Perse

Jacques Lacan está morto. O efeito da frase é um silêncio, a que no entanto não posso me entregar. Lacan não nos obrigava sobretudo a dizer? não desautorizava nas suas sessões o silêncio exigindo imperativamente a fala, impedindo-nos a parada e forçando o desejo contra toda resistência a se manifestar? Hoje que o lugar do analista já não será ocupado por Lacan, qual é o legado do mestre?
O vazio precisamente, o real da sua fala, exigindo de cada um de nós, analisandos ou discípulos, uma fala que diga o que se transmitiu através do seu longo ensinamento, do seu estilo, que sobretudo impunha uma ética nova. Primeiramente uma releitura da teoria psicanalítica para reencontrar o sentido da obra de Freud, restituir à palavra a importância que tinha no momento originário da descoberta do inconsciente, insistindo na idéia de que a prática psicanalítica é função da palavra e seu campo o da linguagem. Por isso mesmo, ao pronunciar a dissolução da Escola Freudiana de Paris, Lacan diria que a diz-solução era sua Eureka, alegando que ali o discurso psicanalítico perdera a virulência suposta pela verdade. A Escola soçobra na ilusão do grupo, esquecida do ato de fundação, do que Lacan então dizia: "Fundo, tão só quanto sempre estive na minha relação à causa psicanalítica, a Escola Freudiana de Paris...". Diz-solução porque os membros já não faziam jus à razão da sua existência, uma prática que está sempre por se fazer, na medida em que a Psicanálise, supondo o estilo de cada um, é de certa forma intransmissível e deve, como afirmava Lacan no último Congresso realizado em Paris, ser reinventada pelos psicanalistas.
Uma releitura da teoria que teve na prática conseqüências decisivas, fazendo do psicanalista não um censor, um diretor de consciências, mas alguém que existia para autenticar o desejo alheio, cadaverizando os próprios sentimentos para que a cura pudesse se efetivar e o sintoma deixasse de se repetir. Não fosse isso, como explicar a transferência que Lacan suscitava em toda parte? O amor e o ódio que o envolviam? Ele era suposto saber e, sabendo-se objeto desta suposição, prestava-se como analista à diz-solução da tranferência, propiciando aos seus analisandos a conquista da mais dura renúncia, a do gozo da ignorância.
Prontidão é o termo que serve para qualificar o estilo da sua prática, que, à diferença da maioria dos outros analistas, ele procurava desritualizar o mais possível, marcando as sessões segundo a urgência de cada um, dispondo-se sempre a escutar, exprimindo claramente o seu desejo de que o analisando viesse até ele para desejar. A resistência na análise, dizia Lacan, não é do analisando, é do analista que produz as defesas e transforma a situação analítica numa luta de prestígio e numa forma de exercício de poder, quando ao analista só cabe dirigir a cura, nunca o analisando.
Durante 37 anos Lacan susteve o seu ensinamento, colocando-se diante do auditório como o analisando diante do analista, exigindo de si mesmo um discurso comprometido com o real que ele aliás dizia ser o seu sintoma. Um ensinamento que muitas vezes nos parecia ininteligível e entretanto sempre deixava uma frase em que podíamos nos reconhecer, era enigmático porque como o inconsciente ele se queria decifrado. Daí o conselho que Lacan dava aos jovens analistas: fazer palavras cruzadas.
Mas sua teoria e sua prática clínica são indissociáveis da luta no interior do movimento psicanalítico internacional, um percurso em que ele repetidamente disse não à instituição em nome das exigências do discurso psicanalítico. Primeiro em 1953, quando a Sociedade de Psicanálise de Paris pretendia fazer da sua prática um monopólio dos médicos. Foi a Cisão, de que resultou a Sociedade Francesa de Psicanálise, e à qual a Internacional de Psicanálise recusou a filiação alegando a prática clínica de um de seus membros, o Dr. Jacques Lacan, e exigindo para reconhecer a nova sociedade que ele se comprometesse a calar. Foi a Excomunhão, a que se seguiu uma ruptura no interior da nova sociedade e a fundação em 1964 da Escola Freudiana de Paris, hoje extinta. Um trajeto que evidencia, ao invés de escamoteá-la, a contradição fundamental entre o discurso psicanalítico e os grupos através dos quais ele se transmite, entre a sua ética e a do poder.
Sendo uma resposta específica a um sofrimento, o que interessa à Psicanálise não é o sucesso mas o que falha, o lapso onde o sujeito se diz e a verdade o encontra.
Lacan está morto, se tornou agora o ancestral, a quem é preciso pagar uma dívida, mantendo viva a sua memória nos atos que nos constituem, na capacidade de dizer não à submissão exigida pelo poder, de denunciar a abjeção que se pratica em nome da Psicanálise e ainda de herdar e assumir a própria história.
_______________
* Jornal da Tarde, São Paulo, 11 set. 1981.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Anticristo

video

Lars Von Trier fez barulho no Festival de Cannes deste ano com seu novo filme Anticristo. O filme ainda não estreiou em Curitiba, mas pelas críticas deve ser um forte soco no estômago. Como a história é com dois personagens, um casal que recentemente perdeu seu filho e o marido psicanalista tentando tirar sua esposa da depressão em Éden, o filme já me despertou o interesse. Mas o paraíso não se mostra tão prazeroso, pois a natureza (leia humana) figura com o mais aterrador. Com um estilo onírico, parece a própria tentativa de cura do diretor, que passava por uma grave depressão na época: os demônios foram filmados!
Agora é esperar para breve o lançamento por aqui, depois de vê-lo, volto com minhas impressões.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sábado na Praça da Espanha


Há quem diga que curitibanos são avessos à grandes demonstrações de sociabilidade, e também que não são chegados à novidades. Porém, esse povo conservador e fechado foi festejar a tímida aparição do sol na Praça da Espanha no último sábado. O evento era uma feira gastronômica seguida da apresentação de artistas locais. Foi um sucesso e a organização estava impecável, mas as pessoas circulando pela praça me encantaram ainda mais que os quitutes de nossos chefs famosos. Era possível encontrar amigos comendo em pratos de plástico sentados na grama. Era possível conversar e rever pessoas. Foi possível espantar a chuva que quase estragou tudo. Entre o tempo brusco e as fichinhas, que depois de compradas davam direito à um prato salgado, doce, refrigerante ou taça de vinho, foi possível lembrar das festas juninas da infância. As praças já foram locais de intensas trocas socias, mas andam esquecidas com o crescimento das cidades. Batel Soho, nome que passou a batizar a região localizada no entorno da Praça da Espanha em Curitiba. É uma iniciativa da Associação de Comerciantes da Região da Praça da Espanha que tem conseguido reviver o encanto da Praça com eventos diversificados e que agradam os frequentadores.